terça-feira, agosto 16, 2005

Casa Vazia

A leveza do silêncio de Kim Ki-duk

Casa Vazia, pessoas vazias. Esta é a metáfora que norteia e inicia o último filme de Kim Ki-duk, cineasta sul-coreano que ficou conhecido por aqui com o anterior Primavera, verão, outono, inverno... primavera . Em Casa Vazia, um homem procura em residências de donos ausentes, um lar ou um cotidiano que, parece, não possui. Escolhe casas ao acaso, apenas com a certeza da ausência de seus moradores. Passa dias nelas. Não as rouba. Parece retirar delas apenas o sentimento de lar. É um lar uma casa sem pessoas? Ao menos ele retira delas os ecos de uma vida alheia. Fotografa-se ao lado de velhas fotos de família; lava as roupas sujas dos moradores em férias; conserta objetos quebrados, numa obsessão que remete a uma troca, como uma espécie de pagamento pelos dias de uma falsa vida que ganha ali.

À primeira vista pode lembrar o politizado Edukators, do alemão Hans Weingartner, mas as semelhanças terminam na primeira impressão. Enquanto Edukators invadia residências para propor um discurso revolucionário, Casa Vazia as invade propondo autodescobrimento. Pode até parecer um filme resposta, porque em Edukators os personagens entravam nas mansões como ato de protesto, em uma espécie de terrorismo psicológico. Casa Vazia também fala das ilusões do mundo contemporâneo, mas o faz sem estardalhaço, sem utilizar-se de manifestos. Além disso, o filme de Kim Ki-duk quer discutir o privado. E o faz com rigor.

Um dia, um erro. Numa das casas, há uma mulher que chora um mau casamento. O erro torna-se um encontro silencioso, uma fuga para ela e uma redenção para ele. Constrói-se aos poucos um relacionamento sem diálogos. A ilusão está na fala, é o que o filme nos diz. A verdade transparece, vai além. A mulher chora a surra que levou do marido, do homem que não mais ama. Cala-se e fecha-se a ele na impossibilidade de enganar(-se). Foge da violência e dos gritos do marido. Segue o homem em suas casas vazias. Ajuda-o a encontrar as residências fechadas, conserta os aparelhos quebrados, lava as roupas, cozinha. Toma para si a mesma busca do homem que entrou em sua casa e o faz ao seu lado. O ama.

Em cada casa que o homem misterioso entra, é possível reconstruir fragmentos da vida que habita ali. Kim Ki-duk faz com maestria uma narrativa silenciosa. Desvenda a história como esse protagonista desvenda as casas em que entra. Fragmentos de vidas expõem-se através de fotografias, vídeos cassetes, roupas, quadros e livros. Ao mesmo tempo, parece que a mis-en-scène que Kim Ki-duk escolhe para o filme é uma auto-referência às próprias descobertas do protagonista: primeiro o silêncio, depois a leveza e a invisibilidade.

Degrau a degrau, esse homem que nada sabemos vai se tornando menos e menos perceptível à medida que o filme transcorre. Torna-se cada vez mais invisível, até parecer um fantasma, uma mera sensação aos moradores das casas que já visitou. Faz isso pelo amor que encontrou naquela mulher.

Se no início ele era furtivo, no fim se torna ausente. Se no início o personagem era uma metáfora para o esvaziamento das pessoas, no fim sua permanente ausência torna-se uma metáfora para a entrega. O filme se subverte. Alcança no extremo de seu conceito uma dimensão paralela para seu discurso, como a ponta do compasso que passa pelo ângulo zero e 360. São os mesmos e diferentes. Anular-se por amor. Entregar-se no amar.

8 comentários:

Anônimo disse...

Pois é "teteu", há quem acredite - que o melhor reflexo vem dos outros.
se eu não fosse uma incréu, eu diria amém. mas, me basta dizer amem.

(adorei seu texto. e... eu te amo!)

Anônimo disse...

Aristeu vim hoje pela primeira vez aqui e vou colocar um link no meu blog pra poder vir mais vezes com facilidade. Amigo quanta saudade de você, de conversar sobre vida, sobre trabalho e desejos de alma. Dessa forma estarei mais perto de seus pensamentos. Tenha muita luz e muito amor. Te adoro e te desejo tudo de bom. Com carinho. titina

Anônimo disse...

os cinco minutos finais do filme são belíssimos. há um plano q é fantástico. o filme, porém, não me tocou. está longe de ser um filme ruim, não é isso, talvez eu q não estivesse "aberta" à ele qndo o assisti. o texto sim, o texto me tocou.

Aristeu Araújo disse...

Thaís, concordo. Os cinco minutos finais é o que tem de mais bonito no filme. Acho que todo o filme é uma preparação para ele. E por mais que Casa Vazia pareça em vários momentos asséptico, a resolução desconstrói tudo e acrescenta outra visão do que é o filme.

Fábio François Fonseca disse...

aristeu, acho que vimos dois filmes diferentes. o cara não está ausente, nunca esteve. ausentes estão as pessoas que deixam as coisas quebradas, os pais do velho que morreu sozinho, o marido histérico e violento que só procura a esposa pra oprimí-la. pelo contrário, o modo original de estar presente é o do cara: usando as coisas que se lhe oferecem, se afeiçoando pelo que encontra e pelas pessoas que usam aquelas casas, cuidando do que os outros não se lembram de cuidar; e, o que mais importa, sem querer ser dono, sem querer dominar ou consumir. ele tem uma casa sim: o mundo, no qual ele tem uma presença mais vívida e mais próxima do que a das outras pessoas. pergunte-se: pq ele e a moça não falam? estão noutro plano de significação, anterior e fundamental ao plano linguístico da cultura. é adão e eva num mundo novo, boa ilustração do que esperamos do amor. a furtividade é esta transcendência então sublimada pelo encontro com a moça: só ela pode vê-lo agora pois só ela está no mundo como ele está.

Aristeu Araújo disse...

François, é provável que tenhamos visto dois filmes diferentes. Aliás, é parte de nós vermos sempre coisas diferentes, porque para cada um os códigos são “lidos” de um determinado modo. Mesmo que você me venha com aquele papo de que a linguagem deve ser comum, há algo em cada um que difere, e é isso que passei esses dias tentando te explicar sobre Casa Vazia.

Em Casa Vazia, de acordo com minha leitura, o protagonista ausenta-se de si porque é a única coisa que ele tem para dar em troca. Ele dá seu reino pela mulher. Logo ele que parecia ter conseguido tanto, como você diz. Não sei se concordo com essa tua visão de que eles estariam em outro plano. Sei que o filme fala da ausência das pessoas em diferentes níveis de discussão. O ausentar-se por amor, que é o renegar-se, entregar-se; o ausentar-se por egoísmo; por cansaço; por avareza; etc etc etc.

François, em uma obra de arte como esta, não vejo sentido que se faça uma leitura tão retilínea, como num jogo de lógica. O que está sendo proposto ali não é uma formulação matemática para ficarmos tentando aprisionar dentro de um equação.

Rhady_Online disse...

Que sinuca de bico essa discussão! Pior que lá no fundo, vocês dois enxergaram a mesma coisa: o não-egoísmo do cara...

Também não acho que ele se anula, pois amar aquela mulher pra ele provavelmente é o estado máximo do ser, o que quer que isso signifique. Mas o Aristeu está coberto de razão quando expõe que o filme trata de diversos tipos de ausência.

De todo modo, esse filme me levou por tantos caminhos que a impressão que eu tenho é de que a cada nova visita a esta obra tão linda, verei um filme diferente, a depender do meu estado de espírito. Tomara...

Beijos!

Fábio François Fonseca disse...

olha aqui, aristeu, eu não vou discutir mais; tudo que eu poderia dizer sobre este filme está expresso em sublime beletrismo lá no blog da rhady. sugiro que depois que você ler, ponha por aqui o link, que a idéia que ela mandou é coisa muito fina mesmo. e pra que discutir mais? tomarei o exemplo do cara do filme e termino minhas considerações citando a passagem final do Tractatus Lógico-philosophicus de Wittgenstein:

"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar."